...e mais uma vez estava sozinho. A solidão deu uma batida forte. Procurei um cassete bem triste e coloquei-o para tocar. A tristeza, assim como a alegria, faz parte da viagem (assim como a vida). Encará-la e aceitá-la é a melhor maneira de livrar-se dela. E assim o fiz. Com poucas pedaladas já estava tão enfeitiçado com a paisagem que esqueci que estava só.
Rafael Limaverde
sexta-feira, 13 de abril de 2012
PELOS CAMINHOS DE NUESTRA AMÉRICA
sábado, 3 de dezembro de 2011
O USO DA PALAVRA
Muito se fala sobre o valor e força que as palavras possuem. No imaginário de muitos cristãos acredita-se que ao pronunciarmos alguma palavra ou idéia mística aquilo se realizará de maneira irremediável como vaticínio, detalhe, se a mesma estiver carregada de ira, então, a vítima não tem como escapar do que foi pronunciado. Isto será mesmo possível? Existe uma dimensão mágica, uma força poderosa à espera de uma palavra para se materializar? Podemos, através desse artifício, causar algum estrago ou benefício a uma pessoa? Eu acredito que dessa forma, não! Entretanto, a palavra do homem tem poder sim, ao dizermos algo podemos não só impactar e influenciar destinos criando assim convicções ideológicas, religiosas ou emocionais. Para muitos indivíduos supersticiosos a palavra tem poder nela mesma.
A história humana é um bom exemplo de que palavras mudam a ordem das coisas. É só recordarmos os feitos dos “camaradas” soviéticos, dos “friends” americanos, do iluminado Gandhi ou do extraordinário Fernando Pessoa, que não nos deixam dizer o contrário. No meio religioso cristão essa idéia mística adquiriu valor, sobretudo, no discurso que sair da boca de um líder poderoso, daquele tipo ávido por resultados grandiosos que desenvolve métodos e tem visões do céu e toma a Palavra de Deus como base para realização de desejos transcendentais. Ou serão materiais? Quase sempre esses poderes divinos estão atrelados, claro, à instituição religiosa. Infelizmente uma grande parte dos fieis é levada pelas palavras e aparência do grande orador (sacerdote), e não discernem que uma palavra mal interpretada, pode fazer um estrago irreparável em sua espiritualidade. Realmente a Bíblia não é um livro de fácil compreensão, é necessário ao que se aventura em sua interpretação uma boa dose de bom senso para ouvir e respeitar o que ela diz. Quase sempre, junto à mística do poder das palavras, encontramos alguém preocupado em resultados mágicos. No texto bíblico em Atos dos Apóstolos capítulo 8:9-11, o personagem Simão é exemplo de uma espiritualidade mundana submetida ao desejo de controlar coisas e pessoas. Diz o texto que todos davam credito às suas palavras e submetiam-se ao mágico pensando ser ele o poder de Deus, pois suas palavras de engano eram “poderosas”. Na cabeça das pessoas, ser poderoso é ter controle sobre situações das mais diversas. Isto me lembra os sistemas de monitoramento em tempo real que a tecnologia tanto apregoa para nosso benefício nos dias de hoje. Vende-se para a sociedade à idéia de que quanto mais controle, menos violência urbana! É o que dizem os apregoadores deste mercado tecnológico. Mas a realidade nos mostra outra coisa. O poder para controlar não será uma sugestão diabólica? Essa sugestão é antiga o desejo desenfreado de controlar pessoas e acontecimentos ou o futuro não cabe a nenhum homem ou sistema, por mais justa que seja a causa. Devemos viver um dia de cada vez, construindo relações livres pela confiança nos princípios divinos. Deus sempre estimulou na humanidade a confiança na liberdade, foi isso que Jesus de Nazaré exercitou com os discípulos e ouvintes, à confiança em Deus. No entanto algumas comunidades cristãs vivem o desvio entre desejo e prática da confiança, infelizmente isto se tornou apenas um alvo a ser alcançado quase nunca vivido. A influência de uma palavra amorosa constrói verdades livres, assim como palavras hipócritas constroem castelos em areia movediça. Pertence a Deus o poder de sustentar toda à criação, mas ele o faz pela liberdade!
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
O INEXORÁVEL COMUM
A percepção do comum, igualmente o sagrado e o profano, são conhecimentos que todos nós experimentamos no decorrer da vida. A meu ver a experimentação do comum é o que temos de mais luminoso na existência humana, pois a partir do corriqueiro entendemos o mundo que nos cerca. Nosso entendimento de tempo, espaço e limites psicológicos são formatos instituídos e estabelecidos culturalmente e produzem o estado de pertença na realidade comum. Mas nós somos seres humanos! Temos que apresentar um significado para o ordinário além dele... Por isto, re-significamos a singularidade do comum tornando-o transcendental, santo ou extraordinariamente profano. Como pode ser? Tomemos o amor como exemplo: sentimento sublime, comum aos seres humanos, que assume conotação santa na dedicação de uma mãe e de um pai presentes, no choro de uma jovem que perdeu seu namorado subitamente, na brincadeira de crianças, nas partidas de futebol, coisas do tipo bem comuns! Mas que podem ser estranhamente sagradas e não religiosas! Esse amor transcendente é do tipo fluído, elástico, de pura fé, compartilhado honestamente com pessoas das mais comuns. Você já notou que quando estamos perto de Deus amamos pessoas! A propósito, Ele se apresenta em nossas vidas de forma bem comum para revelar o Santo, o querido de nossa alma, de quem diz o profeta: não tinha beleza alguma, pois era comum! A experimentação do amor de Cristo, assim sua espiritualidade e morte, são exemplos de que re-significamos o inexorável comum. De maneira que a banalização da vida é não compreender estes significados, profanados por paixões materialistas que são poços sem água, caminhos onde a única certeza é a dor. Portanto, desconsiderarmos a natureza comum na qual estamos inseridos é profanar o sagrado da existência humana.
sábado, 13 de agosto de 2011
PAI
Era apenas um garoto quando vi você partir,
Meu peito ainda dói ao lembrar como sofreu
Para naquele dia me olhar e conseguir sorrir,
Pois em teu peito sabia que era o último adeus;
Como é difícil, pai, deitar à noite e não poder dormir
Ao sentir no peito a dor que a lembrança ainda traz,
E ter que mesmo assim a duros passos prosseguir,
Sem tua mão amiga, que me é uma falta a mais...
O tempo não parou, pai, não me deixou saída,
Me vi contra a parede, e sem escolha resolvi viver;
Minha professora nestes anos foi a própria vida,
Que me obrigou antes da hora a ter que crescer.
Mas creio que um dia ainda vou te encontrar
Nos céus, entre anjos, arcanjos e querubins;
Peço que de onde estejas não deixes de me guiar,
Pois sem tua benção, pai, a vida é muito dura para mim!
Depois de tantos anos ainda sonho com você,
E choro ao acordar, pois no sonho tinha a tua paz...
Faltam-me até as palavras para descrever
Num mero poema, papai, a falta que você me faz!
Gabriel oliveira
quarta-feira, 13 de julho de 2011
OLINDA
Paisagens evocam sentimentos prazerosos, coisa que podemos carregar por toda vida. É isso que levarei ao lembrar-me de Olinda, imagens de ruas marcadas no tempo onde civilizações mais antigas do que nós fincaram bandeiras e “limites civilizatórios”. De maneira sublime as imagens das casas coloridas harmonizam com a natureza num grande espetáculo pictórico serpenteadas pelo mar de Pernambuco. Estimulante aos olhos de turistas boquiabertos que eternizam histórias através de máquinas fotográficas. É totalmente cabível a frase: “Oh, linda situação para se construir uma vila!”, mesmo que digam ser a frase um mito popular. Cada canto da vila eterniza o passado glorioso dos conquistadores e o sofrimento de conquistados. Olinda! Cidadela de navegantes astutos, trazidos pelas correntezas da paixão. A propósito, este foi o sentimento que invadiu nosso coração ao caminharmos pelas ruas estreitas de um caminho que foi e já não é... Olinda, de cores fortes e céu azul, vegetação vasta, coroa de imaginações lusitanas! Maravilhoso cenário cultural que embala sonhos de visitantes deslumbrados, cada olhar deflagra emoções familiares. Os cheiros! O povo! Os artistas, o fundador do bloco dos palhaços! O som de mestre Salustiano trazido na bagagem, e no coração a alegria de termos contemplado tamanha obra prima! Cada porta, janela, friso, telhado relatam detalhes de um tempo distinto, é impossível andar por Olinda sem se chocar com a arquitetura! Os prédios públicos as igrejas portentosas, símbolo divino entre os mortais, declaram o poder dos que têm eira, beira e tribeira! Tudo extremamente confessado, autorizado e estabelecido entre os deuses de além mar. Aqui debaixo do equador os deuses sucumbiram à beleza dos trazidos em porões e embalaram-se pelo som de orixás, misturaram-se as formas negras para criar o Brasil multicor! Multiforme, lindo, como um conto de fadas. Em Olinda prevaleceu à mistura de um Deus mais humano longe de ser um mero espectador, embora os homens não tenham tido intenção.
terça-feira, 28 de junho de 2011
BREVE CONTEMPLAÇÃO
Fiquei maravilhado ao perceber através da janela do carro, num daqueles olhares ligeiros, uma luz cálida que caia perpendicularmente sobre prédios e árvores. Aquela claridade dava a paisagem aspecto de pintura. Esse é um daqueles poucos momentos de lucidez em que caem as escamas dos olhos e a beleza da paisagem ressalta como revelação. Isso foi numa sexta-feira agitadíssima! Dia em que todos parecem mais acelerados, ansiosos. Aquela imagem tocou-me como bálsamo, pois eu também estava acelerado e alienado das coisas que trazem beleza à alma. O cotidiano às vezes torna-se retilíneo por demais, os afazeres monótonos são quase um deus dominando a vida do homem de cidade. Realmente fiquei feliz por contemplar aquela composição radiante, sim, eu pensei, ainda posso ser sensível ao colorido da vida! Com isto me dei conta que o vento batia frio produzindo uma impressão bucólica na paisagem. Por fim, meus olhos saltaram ao ver no horizonte o céu carregado de um azul chumbo, intenso, profundo, prenuncio de chuva...
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Um Poema Escrito Com a Alma
Por Gabriel de Oliveira
O homem, não raras vezes, busca Deus como um ser material, visível, palpável. Busca, inclusive, à sua volta – o que não deixa de ser verdade, pois Deus está sim à nossa volta, numa mera rosa a desabrochar, no sorriso de um estranho direcionado a nós, ou até mesmo numa solitária nuvem a nos sobrevoar em um dia ensolarado. Entretanto, há um lugar especial onde as pessoas muitas vezes esquecem de Lhe procurar, e onde certamente Ele está: em nós mesmos, em nossos próprios corações, que é, sem sombra de dúvida, seu mais valioso templo.
Nesse contexto elaborei este poema, eterno navegar, que busca expressar exatamente a angústia que sente o homem que precisa de Deus em sua vida, de um porto de águas calmas para atracar, mas ainda não consegue encontrá-Lo. Todavia, no instante em que se põe a olhar para si mesmo, para seu próprio mar inconsistente, consegue, enfim, enxergá-Lo, visto que Deus, por mais distante que esteja Dele nosso coração, está sempre conosco. E ao fim, no instante em que o homem passa a olhar Deus com os olhos de sua alma, e não mais com seus olhos carnais limitadíssimos, consegue notá-Lo, por simplesmente não mais procurá-Lo materialmente, mas sim em sua mesma natureza, que é espiritual.
Eterno navegar
O homem navega em eterna busca
Em mar agitado que jamais finda.
Mas que porto é este que tanto procura?
Será, quem sabe, um sentido à vida?
Ou é felicidade, a terra firme distante
De sua nau chamada coração errante?
Ou será Deus a terra a que tanto aspira?
Mas como pode a este Ser tanto aspirar,
Se navega este homem em mar tão ausente?
Como pode neste porto querer atracar,
Se nem mesmo o vê, apenas o sente?
Se ao menos pudesse o enxergar,
Independente de para onde mirar.
Não é Deus, então, onipresente?
Eis que o homem à sua nau de regresso,
Resolve, em seu navegar insistente,
Mergulhar no mar de seu universo
E acalmar de ver esta água tão quente.
E neste oceano, então, assume sua fraqueza,
Podendo, enfim, ver toda a beleza
Que há em si próprio, mar inconsistente!
E ao se olhar, o homem já se enxerga
Não mais como uma nau à deriva,
Pois ao se conhecer, não mais se nega
A ver Deus, luz do farol à vista!
E de peito aberto mira a toda parte,
Conhecendo o artista por sua arte,
Horizonte belo do mar de sua vida!
Segue, então, tranquilo o seu navegar
Rumo a Deus, porto de água calma
Que pode o homem, enfim, enxergar,
Posto que agora o mira com a alma.
Gabriel de Oliveira
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