terça-feira, 28 de junho de 2011

BREVE CONTEMPLAÇÃO

Fiquei maravilhado ao perceber através da janela do carro, num daqueles olhares ligeiros, uma luz cálida que caia perpendicularmente sobre prédios e árvores. Aquela claridade dava a paisagem aspecto de pintura. Esse é um daqueles poucos momentos de lucidez em que caem as escamas dos olhos e a beleza da paisagem ressalta como revelação. Isso foi numa sexta-feira agitadíssima! Dia em que todos parecem mais acelerados, ansiosos. Aquela imagem tocou-me como bálsamo, pois eu também estava acelerado e alienado das coisas que trazem beleza à alma. O cotidiano às vezes torna-se retilíneo por demais, os afazeres monótonos são quase um deus dominando a vida do homem de cidade. Realmente fiquei feliz por contemplar aquela composição radiante, sim, eu pensei, ainda posso ser sensível ao colorido da vida! Com isto me dei conta que o vento batia frio produzindo uma impressão bucólica na paisagem. Por fim, meus olhos saltaram ao ver no horizonte o céu carregado de um azul chumbo, intenso, profundo, prenuncio de chuva...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um Poema Escrito Com a Alma

Por Gabriel de Oliveira

O homem, não raras vezes, busca Deus como um ser material, visível, palpável. Busca, inclusive, à sua volta – o que não deixa de ser verdade, pois Deus está sim à nossa volta, numa mera rosa a desabrochar, no sorriso de um estranho direcionado a nós, ou até mesmo numa solitária nuvem a nos sobrevoar em um dia ensolarado. Entretanto, há um lugar especial onde as pessoas muitas vezes esquecem de Lhe procurar, e onde certamente Ele está: em nós mesmos, em nossos próprios corações, que é, sem sombra de dúvida, seu mais valioso templo.
Nesse contexto elaborei este poema, eterno navegar, que busca expressar exatamente a angústia que sente o homem que precisa de Deus em sua vida, de um porto de águas calmas para atracar, mas ainda não consegue encontrá-Lo. Todavia, no instante em que se põe a olhar para si mesmo, para seu próprio mar inconsistente, consegue, enfim, enxergá-Lo, visto que Deus, por mais distante que esteja Dele nosso coração, está sempre conosco. E ao fim, no instante em que o homem passa a olhar Deus com os olhos de sua alma, e não mais com seus olhos carnais limitadíssimos, consegue notá-Lo, por simplesmente não mais procurá-Lo materialmente, mas sim em sua mesma natureza, que é espiritual.

Eterno navegar

O homem navega em eterna busca
Em mar agitado que jamais finda.
Mas que porto é este que tanto procura?
Será, quem sabe, um sentido à vida?
Ou é felicidade, a terra firme distante
De sua nau chamada coração errante?
Ou será Deus a terra a que tanto aspira?

Mas como pode a este Ser tanto aspirar,
Se navega este homem em mar tão ausente?
Como pode neste porto querer atracar,
Se nem mesmo o vê, apenas o sente?
Se ao menos pudesse o enxergar,
Independente de para onde mirar.
Não é Deus, então, onipresente?

Eis que o homem à sua nau de regresso,
Resolve, em seu navegar insistente,
Mergulhar no mar de seu universo
E acalmar de ver esta água tão quente.
E neste oceano, então, assume sua fraqueza,
Podendo, enfim, ver toda a beleza
Que há em si próprio, mar inconsistente!

E ao se olhar, o homem já se enxerga
Não mais como uma nau à deriva,
Pois ao se conhecer, não mais se nega
A ver Deus, luz do farol à vista!
E de peito aberto mira a toda parte,
Conhecendo o artista por sua arte,
Horizonte belo do mar de sua vida!

Segue, então, tranquilo o seu navegar
Rumo a Deus, porto de água calma
Que pode o homem, enfim, enxergar,
Posto que agora o mira com a alma.

                                   Gabriel de Oliveira

domingo, 17 de abril de 2011

Espiritualidade & Mercado

Das vielas às universidades globalização não é mais só um conceito, estamos vivendo de maneira intensa essa nova realidade mundial aqui no nordeste. Isso me remete a década de noventa quando vi alunos e professores receberam deslumbrados a noticia alvissareira da chegada da tal globalização. Nessa época eu dava aulas de arte numa comunidade carente que acreditava nos benefícios que esse fenômeno do mercado traria. Um aspecto que impulsiona e legitima essa nova realidade é o “grande espírito” tecnológico nas comunicações via internet que viabiliza uma nova era de informações e conhecimento à humanidade, dando uma conotação democrática. Mas não é bem assim para todos os cidadãos, principalmente os mais pobres. A princípio não há nada de errado em acreditar e desejar pra si tamanha promessa de desenvolvimento social, pois conhecimento nas mãos humanas transforma o meio. Contudo é necessário, que nessa corrida para o futuro, que já é presente, identificar alguns pontos negativos que veio a reboque dessa magnífica materialização de desejos comerciais. O que de fato temos adquirido com nossa inserção global? Se olharmos com mais interesse veremos algum lixo resultante dessa odisséia que o mercado nos convida a cada momento. Podemos nomear alguns reveses como ansiedade, aceleração mental, individualismo exacerbado e pouca comunicabilidade interpessoal. Parece paradoxal, mas é real, a excelência da técnica dessa geração produz uma infeliz realidade, o distanciamento da espiritualidade. Segundo Ed René Kivitz “A espiritualidade pode ser compreendida como atributos do espírito; autoconsciência, consciência, volição, emoção e razão, e também como virtudes do espírito: justiça, compaixão, solidariedade, capacidade de perdoar e se sacrificar por amor”... Temos aberto a janela e visto um mundo distante dessa espiritualidade. O que na verdade planeja o mercado para combater ou minimizar os efeitos de um comportamento devastador em nossas relações? Trarão os ansiolíticos da grande indústria farmacêutica as respostas?  Por necessidade tecnológica o mercado criou conceitos analógicos e digitais para um melhor aproveitamento do tempo nos processos de comunicação e execução das maquinas, isso de alguma forma tem sido incorporado ao comportamento de milhares de pessoas que ao ligarem o botão de um equipamento acionam o mundo virtual sem questionamento. Ao corrigir as defasagens técnicas com leituras digitais tornou-se normal que também fizéssemos o mesmo em nossa espiritualidade. Não vejo porque demonizar a técnica ou conhecimento algum, mas as intenções que estão por trás de processos alienantes devem ser questionadas, averiguadas, por cada cidadão, pois a vida é mais que liga/desliga de um botão.    


terça-feira, 29 de março de 2011

A Dádiva da Consciência

Hoje o dia começou ensolarado e alegre, como todo começo de dia após uma grande chuva. Imediatamente meu ânimo melhorou e tudo ficou radiante, principalmente quando senti o inebriante cheiro de café, humm, maravilhoooso! Mas, nem todos podem experimentar esse dia da mesma maneira que sinto, pois a vida difere de pessoa para pessoa e cada um vive o tempo de forma distinta. O sabor do meu café não é o mesmo sabor do seu café. Isso me levou a lembrar da situação difícil que um amigo está passando. Ele encontra-se apreensivo, pois existe a possibilidade de seu filho perder a perna por causa de uma infecção. Por isso, o dia tem outro sabor para ele. Para um pai que ama! Filho ou filha são como o sol que torna a vida cheia de sentidos. Hoje abri minha caixa de e-mail e li o que um amigo enviou. Umas fotos de paisagens lindas acompanhadas de frases do filosofo Aristóteles. Numa delas o velho sábio diz: “seja senhor de sua vontade e escravo de sua consciência”. Isso foi outra coisa forte que me invadiu o coração nesse dia! Ter consciência é dádiva... Devemos buscá-la como a um tesouro, pois traz paz e equilíbrio para a alma. Do contrário, desequilíbrio, estado de uma pessoa sem consciência, produz dor. Foi isto que levou o filho de meu amigo a um hospital, alguém desequilibrado não conseguiu dominar a si mesmo, nem o carro que dirigia, provocando o acidente automobilístico.
            Apesar de vivermos no mesmo mundo as fatalidades acontecem indistintamente, ou será que não? Cada dia trás seu próprio mal! Não temos a mesma sorte e os mesmos ideais, nem as mesmas atitudes nobres ou vis diante das experiências de vida. É o caso do rapaz que provocou o sinistro, ao ser indagado sobre o por que da fuga desumana – coisa comum às pessoas sem consciência – simplesmente, sem nenhuma justificativa diante do fato violento, disse: “eu sou filho de um homem rico”! Isto foi para demonstrar seu poder de negociação? Meu Deus, que significa isto? Que tipo de consciência foi construída por este jovem? É obvio que um acidente escapa ao controle de qualquer um porque é um acidente, no entanto, pode-se evitá-lo não bebendo antes de dirigir. O que não foi o caso. Um grande poeta expressou a atitude alienada do homem sem consciência nos versos: ê ê ô vida de gaadoo! Povo marcado, ê! Povo feliz! Alguns homens satisfazem seu hedonismo a qualquer custo, pois estão marcados pela pecha do egoísmo, que os faz assumir o lugar de irracionais... 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Papo Cabeça

      Acredito que a vida é bela, independente de estar feliz ou não, isso é ato de fé. Do mesmo modo, sentir o pulsar acelerado do coração, a respiração de quem eu amo, ou contemplar as cores de uma paisagem.  Tudo isso me leva a uma dimensão mais ampla da vida, por fé. Vivenciar experiências com outras pessoas é uma dádiva que traz angustia e desconforto, mas esse é o poder que produz vida saudável para minha alma. Por várias maneiras percebo que a existência, em si, é extraordinária, basta ver o ciclo de vida das espécies para de imediato dizer: nossa, que coisa maravilhosa! Como uma folha pode ser tão complexa e num simples exalar de perfume me remeter ao passado? Faça um exercício de olhar para os céus e contemple além das nuvens, deslumbre-se com o perfeito equilíbrio dos corpos celestes, que estão numa incrível dança cósmica, para ficar simplesmente de boca aberta! E mais, tente conversar com uma pessoa desconhecida de maneira interessada, perceba seu jeito de falar, seu ideal, sua limitação, isso também pode ser deslumbrante, depende de você e de mim. Contudo, há quem diga que esse tipo de argumento é fuga da realidade, escapismo, romantismo ou coisa de papo cabeça, por acreditar que a vida resume-se nos “problemas do mundo real”, onde não pode existir paixão. Afinal, o que é o mundo real? O ruim de pensar desta maneira é que o ser humano perde gradativamente a sensibilidade para ponderar o belo e deslumbrar-se com a dádiva da vida, que para mim é ato de fé!  Salomão disse que há tempo pra tudo na vida. Por certo há lugar no cotidiano para as relações pragmáticas do “mundo real”. Mas, pensar de maneira reta torna o mundo interior insípido, vazio e sem fé, coisa que não quero, pois isto me faz perder a capacidade de ver além dos fatos, a visão torna-se obtusa e não entendo a metáfora do existir, que é luminosa.         

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Divulgação: Livro Apenas Um Carpinteiro de Jansen Viana




Este é um daqueles livros que surpreendem, porque nos conduz de forma simples e rica a entendermos o coração do homem através do cotidiano. O autor Jansen Viana conta uma história empolgante e cheia de surpresas.Tive a honra de fazer as ilustrações do livro. Vale a pena conferir! Por isso, convido a todos a estarem presentes no lançamento, dia 02/02, na Livraria Cultura. 
Abraços e até lá.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A Complexidade do Coração Humano

O ser humano é uma criatura complexa tanto em sua forma externa como em seu interior. Somos indivíduos com dimensão biológica, psicológica e espiritual. Independente de credo esse último atributo nos faz diferentes ainda mais das outras formas de vida. Porém ao discernir essas dimensões empregamos a capacidade de refletir que chamamos de razão ou racionalidade. Por conta disso o homem produziu o conhecimento que ao longo do tempo tornou-se sistemático. Esse conhecimento é tão grandioso que nos permite criar e transformar o meio que nos circunda, assim como a nós mesmos. Então, a partir das idéias criamos o mundo concreto e com essa força perpetuamos nossa existência de maneira poderosa sobre a terra. Isso nos faz sábios e entendidos aos nossos próprios olhos, é impossível conter tamanha energia. Não foi por acaso que recebemos a ordem de dominar a terra. Podemos até dizer que temos a imagem de Deus, o toque do Divino em nossa humanidade. Mas, isso me leva a uma pergunta, por que este fato não produz integridade na sociedade? Por que o conhecimento que acumulamos não nos liberta de fraquezas como a altivez e o ódio? Pelo contrário, o conhecimento acumulado nos dá a falsa impressão de sermos mais merecedores de importância nas relações que travamos com os outros, justamente por ter conhecimento. Paradoxalmente o caminho tornou-se o fim. É recorrente o homem produzir informação e fazer disso arma de dominação. Como se diz: quem sabe mais, domina mais! Porque é tido como o mais forte pelos pares! Um grande lutador! Por isso merece a admiração de todos. Inevitavelmente nossas diferenças são mais ressaltadas do que as semelhanças. Será a síndrome de Ninrode? Essa lógica do homem antigo perpetuada na contemporaneidade seria a forma de agir do homem natural como declara as Sagradas Escrituras? No entanto, os sábios são amigos da reflexão e do compartilhar em simplicidade um caminho espiritual que valoriza o outro como forma de conexão com o Criador. Deste modo o ensino que Jesus, O Filho do Homem, compartilha com os que a Ele se achegam é uma opção que nos leva a também compartilhar a humildade na vida. Integralmente nEle entramos na dimensão do conhecimento inclusivo que resgata o conceito de igualdade. Coisa incomum em uma sociedade capitalista e desiludida como a que vivemos, na qual as instituições, inclusive as religiosas, encontram-se em decadência, porque contraditoriamente perderam o sentido de igualdade e humildade que se traduz em justiça. Entretanto, para Jesus o importante na vida é o caminhar traduzido em ações e não somente a forma piedosa dos ditos seguidores. Muitas vezes as uniões em torno do conhecimento espiritual estabelecido como o certo se tornam rigorosas e promovem a intolerância. Sobretudo os religiosos que defendem o conhecimento dogmático como o correto. No entanto é nEle que nos tornamos iguais não porque temos o conhecimento em comum, mas porque o conhecimento que provem de Deus busca o bem comum. A inteireza de ações deve edificar valores existenciais e promover transformação em nossa estrutura. O Interessante dessa proposta é que os pequeninos, ou seja, os que não têm conhecimento formal, culto, são os que melhor compreendem o caminho e o aceitam.